Busca:
                   
HOME CINEMA EXPOSIÇÕES GASTRONOMIA LIVROS & REVISTAS MÚSICA PASSEIOS & NOITE TEATRO & DANÇA ONDE FICA EXPEDIENTE CONTATO

12/11/2009
Dragão do Mar
Por Viviane Mendes






Quem ainda não ouvir falar em “Dragão do Mar”, precisa estudar um pouco mais sobre a história do Brasil. Cearense com muito orgulho, me emocionei ao conhecer pela primeira vez o centro cultural que dá nome a um dos grandes abolicionistas que marcaram a história do nosso país. Quem dera, nos dias de hoje, tivéssemos um Chico da Matilde, como o Ceará o teve 95 anos atrás.

  Certamente, não teríamos um terço da crueldade e desumanidade que temos hoje. Filho de pescador e órfão de pai ainda menino, Francisco José do Nascimento, o Chico da Matilde, começou a trabalhar ainda muito pequeno como garoto de recado no Porto de Fortaleza. Entre os anos de 1877 e 1879, os grandes proprietários escravistas do Ceará, para diminuir seus prejuízos, devido a epidemia de cólera e arrasados pela seca, começaram a vender, como mercadoria, seus escravos para os fazendeiros do sudeste do estado, onde se concentrava uma demanda de mão-de-obra, em função do cultivo do café.

  No ano de 1890, o Chico da Matilde, então presidente da Sociedade Cearense Libertadora, e sob o slogan: “no Ceará não se embarcam escravos”, liderava os jangadeiros, impedindo o embarque de escravos e bloqueando o porto. Francisco José foi ameaçado e perseguido, a ele atribuíram ações judiciais por crime de sedição, mas mesmo assim, este verdadeiro herói se manteve firme. Graças à sua vigilância, o porto de Fortaleza se manteve inviolável, deixando sem alternativa os senhores de escravos que acabaram concordando com a liberdade de seus cativos.

  Este grande feito deu ao Chico da Matilde o nome de “Dragão do Mar”, rapidamente a bravura desse homem, que não se rendeu aos desmandos e ameaças dos poderosos donos de engenho, chegou a todas as cidades do estado, sendo decretado o fim da escravidão no estado do Ceará e em 1884, o estado foi o primeiro a abolir a escravidão, quatro anos antes do restante do Brasil.

Quem pensa que a escravidão foi extinta em 1888, se engana. Em pleno século XXI esta prática ainda é desenvolvida. Para quem não sabe, a escravidão pode ocorrer em forma de trabalho rural ou exploração sexual, e isso, em qualquer lugar do mundo, o que dirá no nosso nordeste brasileiro, onde a fome e a miséria assolam aquele povo tão sofrido e humilhado, que não tem voz e nem vez, onde só são procurados em tempos de eleição e o voto vale um prato de comida.

  Infelizmente, heróis como Dragão do Mar não existem mais, e os trabalhadores aliciados ficam a mercê dos charlatões que prometem trabalho, moradia e comida para eles e suas famílias. Suas filhas são violentadas, a sua moral e dignidade rapidamente são diluídas, como seus sonhos, ao perceber que as promessas não correspondem à realidade em que estão vivendo. O sonho de voltar para casa se torna um pesadelo.

Esses trabalhadores, humilhados passam a contrair dívidas que jamais esperavam, os gastos com transporte, materiais de trabalho, alimentação, medicamentos e cigarros; adquiridos em uma espécie de mercearias dentro das fazendas, que, por sinal, custam o triplo do valor de mercado, são anotados em uma caderneta gerando uma dívida sem fim, sem contar o alojamento, que não possui condições dignas de higiene, mas que também é cobrado.

Quem dera tivéssemos nos dias de hoje um Dragão do Mar, ou melhor, vários, para impedir este tipo de desumanidade, combater e repudiar este tipo de escravidão, velada, mascarada, que se encontra diante dos olhos dos nossos governantes, mas que eles não fazem questão nenhuma de olhar, preferindo tapar os olhos e discutir questões mais amenas.

 

Viviane Mendes é jornalista apaixonada por leitura e telejornalismo.




Ver Comentarios (0) | Comentar


HOME | CINEMA | EXPOSIÇÕES | GASTRONOMIA | LIVROS & REVISTAS | MÚSICA | PASSEIOS & NOITE | TEATRO & DANÇA | ONDE FICA | EXPEDIENTE | CONTATO
site desenvolvido por Digiwork 2009