Christiane (Edith Scob) vive reclusa com o rosto deformado por causa de um acidente de carro. Por sorte – ou azar - seu pai é um cirurgião plástico (Pierre Brasseur) que, em dupla com uma enfermeira (Elida Valli), resolve sequestrar e mutilar belas moças para transplantes experimentais de transplante da face. Esse é o enredo simples e desconcertante de Olhos sem Face (1959), do cineastra francês Geores Franju.
Classificado como terror, o filme pode decepcionar quem espera o ritmo frenético ou a carnificina sangrenta que redefiniram o gênero desde os anos 80. O que então, além desse lado sombrio, faz de Olhos sem Face um filme tão cultuado e perturbador, 50 anos após seu lançamento?
A começar pelo tema do filme, o diretor não fica na superfície e dá uma pista falsa, sugerindo que é um tratado sobre a obsessão da beleza. Mas seu verdadeiro tema é a busca das mulheres daquele tempo por uma identidade: algo como deixar de ser coadjuvantes nas mãos de homens opressores.
Olhos sem Face é, portanto, a construção da identidade feminina que nasce por sentimentos comuns e solidariedade. Exemplar é a cena em que a enfermeira, ou amante do cirurgião - não se sabe ao certo - é chamada de estrangeira. Mas de onde ela veio exatamente? Como surgiu na vida do médico? Na verdade, não importa.
Tanta ambiguidade, que poderia ser creditada a falha de roteiro, é cirurgicamente tramada por Franju para apontar o papel secundário das mulheres nos anos 50. É assim, sob camadas metafóricas, que o filme ganha a dimensão dos clássicos e supera qualquer rótulo. E a sequência final traz a redenção em cenas quase sem diálogos, ou seja, puro cinema da mais alta qualidade e intensidade.
Como se não bastasse, Franju ainda faz evidente referência a Hithchcock: desde o início, já se sabe quem pratica o mal. Mas esse vilão sente dor e culpa. E o filme deixa em suspense, até quase a última cena, se ele vai sofrer alguma punição ou sair ileso.
A intertextualidade com Hitch foi proposital – até mesmo na pitada irônica de mutilar somente vítimas loiras – mas Franju não poderia conceber que seu filme permaneceria tão contundente e atual, pois o mundo de hoje também nos transforma em seres à procura de uma identidade - porque há informação demais e tudo é rápido demais, espetacularmente fútil e superficial, como a máscara de Christiane.
Pedro Duarte é jornalista formado pela Universidade de São Paulo (USP), amante da sétima arte e fã dos diretores Hithchcock, Almodóvar, Cronenberg e Woody Allen.