Dia desses li: Jumentos sacrificados no Ceará. “...jumentos pegos nas estradas são mortos à pauladas e jogados em vala, muitos ainda com vida. A estimativa é que quatro mil animais tenham sido mortos dessa maneira, desde janeiro de 2002. As últimas denúncias foram recebidas este mês pela União Internacional Protetora dos Animais - Uipa, contabilizando 150 jumentos na última matança. Para morrer cada animal recebe uma paulada na cabeça, em seguida, é jogado numa vala cavada por trator".
Minha sogra, pra não perder o costume, ainda falou: “Ainda bem que você não estava lá...”
Todo mundo, e a mulher de ‘seu’ Raimundo, sabe que os tempos atuais são apocalípticos. Mas será que o jumento nosso irmão, está marcado no rol dos pecadores sujeitos a tal castigo? O certo é que a matança já era comum na década de 70, quando o animal, como dizem, foi quase extinto pelos frigoríficos que utilizavam sua carne para fazer salsicha, enlatados e congêneres. E ainda, segundo a língua do povo, o sangue do bicho era usado para fazer vacina.
Naquela época, o Padre Antônio Vieira, escritor cearense falecido recentemente, lançou as bases de um movimento em defesa do jegue. Primeiro com o livro O Jumento nosso irmão, que foi até traduzido para o inglês -The donkey, our brother, publicado em Nova Iorque e, depois, com a criação do Clube Mundial do Jumento, reunindo jornalistas, políticos, intelectuais e artistas. Uns menos e outros mais aparentados com o quadrúpede. Dizem que a atriz Brigite Bardot, quando ficou velha, adquiriu um repentino amor pelos animais, e teria se apaixonado perdidamente pelo jumento quando viu a “catilogência” fálica da criatura.
Para quem não sabe, no Brasil vivem cinco “marcas” de jumento: o cabano, com as orelhas quebradas; o baé, baixinho; o pega, maior; o Canindé,preto com a barriga branca e o gabinete, que tem a maior pujança genitálica, chegando o seu “bráulio”,que arrasta no chão, a servir como tração extra quando o animal atola. Foi por ele que Brigite Bardot se encantou.
Por causa dessa campanha do Padre Vieira e também pelo desuso na agricultura, transporte e alimentação,que o quadro se reverteu. Como diria o grande filósofo paraibano Getúlio França, guitarrista da renomada banda Diarréia: agora está sobrando jumento e o preço de um deles, segundo o IGP, chegou ao ridículo valor de R$ 5,00. Ninguém os quer nem de graça. Por isso eles vagam aos lotes pelas estradas, onde são pegos e depois mortos pelos órgãos (in) competentes.
Uma pena, o jegue que esteve presente, por três vezes, na vida de Jesus: no nascimento, na fuga para o Egito e na entrada triunfal em Jerusalém, no domingo de Ramos e é um bicho de 1001 utilidades, poderia ser utilizado inclusive, nas grandes cidades em atividades variadas:
· No trânsito – a prefeitura doaria um jegue para cada cidadão, e confiscaria seu carro, contribuindo para o desafogo do tráfego e a diminuição da poluição, já que o jumento é menor que um automóvel e não usa combustível fóssil;
· Na segurança – um jumento bem treinado é capaz de dar cabo de dois ou três bandidos;
· Como relógio/despertador – o relincho de um jegue tanto é alto, como pontual, ele sempre relincha em horários cheios, ou seja: de hora em hora, de meia em meia hora ou, ainda, de quinze em quinze minutos. Melhor que o relógio do homem do Baú...
No mais, é como disse Luiz Gonzaga, o rei do baião: “O bicho é servidorzinho!”
Falcão é cantor, com 13 anos de carreira, e colaborador do Virado à Paulista.
Com argumento de Lílian Huertas e colaboração de Tarcísio Matos.