Era meia noite e quinze quando eu validei a comanda eletrônica numa badalada casa noturna de São Paulo (na Augusta) e uma garota de não mais de vinte anos perguntou meu nome. Antes mesmo que eu respondesse me apresentou sua turma – típico na noite – um a um.
— Essa é a La, a Jú, a Deca, a Mari, o John e o Rob. – todos sorriram.
Pensei comigo que poderiam ser Larissa, Juliana, Mariana, Robson, mas faltavam Deca e John o qual custava acreditar ser americano, pois não aparentava.
Há uns meses eu passei meus vinte e seis anos. Não sei se é a idade ou se sou um rapaz politicamente correto, mas não consigo me relacionar amigavelmente com uma pessoa sem saber seu nome. A turma era bem descolada, do tipo que se eu perguntasse o nome, seriam capazes de repetir seus curtos nomes.
A noite se passou, a casa lotou e logo chegaram mais componentes daquela mesma turma. A garota me procurou com os olhos e ao encontrar-me...
— Olha, o Lê, a Fá, a Bê e o Téo.
Téo!? Ufa... Supostamente Teodoro, pensei. Entre caipirinhas e vodkas, o ritmo da pista acelerava cada vez mais e a noite se tornava mais interessante. Encontrei alguns amigos por acaso: a Joseane, a Alessandra, a Tatiane, o Ricardo, o Flávio e o Alexandre.
Por volta das três da manhã, quando a garota e sua turma decidiram badalar em outra disco se dirigiu até mim...
— Ah! Eu esqueci de me apresentar, me chamo Cá.
Cá? Carina, Camila, Catarina(e), Carla, Catia, Carmela, Carolina(e)... enfim, claro, perguntei: Cá de que?
Mas ela já tinha ido, justamente quando eu ia replicar: Prazer, eu sou o Má.
Passei a semana pensando no por que, nós jovens, encurtamos os nomes de nossos amigos. Não cheguei a nenhuma resposta que me convencesse. Penso que nos sentimos mais próximos a nossos amigos, mais íntimos. Encurtar os nomes não é o mesmo que dar apelidos. Estudos dizem que apelidos já eram usados na Grécia e também na Roma Antiga como, por exemplo, “Cirprião, o Africano” ou “Plínio, o moço”. Esse era um método de identificar a pessoa que tem nome comum de um todo, ou seja, dentre todos os Plínios, era o mais moço a quem se referiam. Acho que isso existe até hoje. Uma vizinha tem um nome muito comum, mas me refiro a ela como “fulana, a fofoqueira”. De qualquer maneira, descobrir o significado do nome da pessoa seria menos ofensivo. Gostaria que alguém ao invés de me chamar de Má, se referisse à mim como “Marcos, o Orador”.
Meio brega. Mas tudo bem.
Marcos Sousa é jornalista, professor e dançarino de flamenco.